Lanchonete suja, logo àquela hora da manhã. Movimento intenso. Só o funcionário sozinho não consegue catar aqueles papéis antes que o freguês recém-chegado jogue outros dois por cima. Pra salgados muito gordurosos, eu, por exemplo, preciso de no mínimo uns cinco. Fora aqueles pra limpar a boca. O gari continua varrendo a porta da igreja. É, dizem que tem plantão de madrugada. E é bem capaz de aqueles serem os últimos minutos do expediente dele. Ficou ali na madrugada, no frio. Quando eu voltava da pizzaria, com o pessoal lá de casa, e via as janelas da rua fechadinhas, com cortinas cerradas e luzes apagadas, ficava imaginando como seria bom aquele escurinho. Dormir quentinha, num quarto gostoso. Ficava doida pra chegar em casa e fazer o mesmo, mas ainda faltavam dois quarteirões. Será que o gari sente o mesmo? Deve sentir. Imagina, ainda ter que ir pro ponto de ônibus e esperar mais uns 50 minutos até em casa. Eu tenho sorte. Reclamo demais. E aquela moça ali na praça? Logo cedo, com aquela saia. Hoje tá friozinho, ela deve tá sentindo frio. Os pêlos da perna devem estar arrepiados. Parece que ela também passou a noite ali. Possivelmente trabalhando. Como o gari. Mas não na mesma coisa. Trabalhando. Os cabelos desgrenhados. Um loiro desbotado, com a raiz negra. Mal-cuidado. Dá vontade de conversar, saber a história daquela noite. Aliás, essa coisa de história das pessoas. Todos os dias, milhares de pessoas se cruzam umas com as outras. As histórias delas também. Clarissa Dalloway tinha uma teoria interessante. Como é que era? Achei meio complicada, tive que ler o parágrafo umas três vezes. Meio que a sua vida se completa na do outro. Essas histórias indizíveis, uns dos outros. Parece aquela fila de formiguinhas. De vez em quando eu gostava de deitar na cama, olhar pro teto e observar a fila delas. Toda vez que duas se encontram, param. Coisa de um segundo, mas param. Sempre imaginava o que uma falava pra outra. Depois disso, seguiam religiosamente a trilha. Diferentes, mas todas iguais. Iguais a gente mesmo. Aquele pessoal da Antônio Carlos, por exemplo. Pessoas iguais a nós. Mesma constituição corpórea, jeito de andar e lugar garantido na Constituição de 88. Mas estão ali, dormindo naqueles colchões. Onde será que eles arrumam? Os cães devem ser da rua, também. Eles também são pessoas de rua. Credo, que estranho. Parece que são amigos, eles. Dormem todos juntos, afinal. Sob a mesma marquise. Intimidade de sobra. Os vidros da Avenida são quebrados. É difícil achar um lugar que pareça habitável ali. Cheio de sobrados e vidros quebrados. Se bem que já vi algumas plantas na mureta. Estavam verdes, então é sinal de que alguém jogava água. Cortinas na janela também denunciam. Pra saber se a casa está habitada, tente o truque da cortina. Sempre dá certo. Nossa, é o próximo ponto. Vou dar o sinal.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Elos fracos
Lanchonete suja, logo àquela hora da manhã. Movimento intenso. Só o funcionário sozinho não consegue catar aqueles papéis antes que o freguês recém-chegado jogue outros dois por cima. Pra salgados muito gordurosos, eu, por exemplo, preciso de no mínimo uns cinco. Fora aqueles pra limpar a boca. O gari continua varrendo a porta da igreja. É, dizem que tem plantão de madrugada. E é bem capaz de aqueles serem os últimos minutos do expediente dele. Ficou ali na madrugada, no frio. Quando eu voltava da pizzaria, com o pessoal lá de casa, e via as janelas da rua fechadinhas, com cortinas cerradas e luzes apagadas, ficava imaginando como seria bom aquele escurinho. Dormir quentinha, num quarto gostoso. Ficava doida pra chegar em casa e fazer o mesmo, mas ainda faltavam dois quarteirões. Será que o gari sente o mesmo? Deve sentir. Imagina, ainda ter que ir pro ponto de ônibus e esperar mais uns 50 minutos até em casa. Eu tenho sorte. Reclamo demais. E aquela moça ali na praça? Logo cedo, com aquela saia. Hoje tá friozinho, ela deve tá sentindo frio. Os pêlos da perna devem estar arrepiados. Parece que ela também passou a noite ali. Possivelmente trabalhando. Como o gari. Mas não na mesma coisa. Trabalhando. Os cabelos desgrenhados. Um loiro desbotado, com a raiz negra. Mal-cuidado. Dá vontade de conversar, saber a história daquela noite. Aliás, essa coisa de história das pessoas. Todos os dias, milhares de pessoas se cruzam umas com as outras. As histórias delas também. Clarissa Dalloway tinha uma teoria interessante. Como é que era? Achei meio complicada, tive que ler o parágrafo umas três vezes. Meio que a sua vida se completa na do outro. Essas histórias indizíveis, uns dos outros. Parece aquela fila de formiguinhas. De vez em quando eu gostava de deitar na cama, olhar pro teto e observar a fila delas. Toda vez que duas se encontram, param. Coisa de um segundo, mas param. Sempre imaginava o que uma falava pra outra. Depois disso, seguiam religiosamente a trilha. Diferentes, mas todas iguais. Iguais a gente mesmo. Aquele pessoal da Antônio Carlos, por exemplo. Pessoas iguais a nós. Mesma constituição corpórea, jeito de andar e lugar garantido na Constituição de 88. Mas estão ali, dormindo naqueles colchões. Onde será que eles arrumam? Os cães devem ser da rua, também. Eles também são pessoas de rua. Credo, que estranho. Parece que são amigos, eles. Dormem todos juntos, afinal. Sob a mesma marquise. Intimidade de sobra. Os vidros da Avenida são quebrados. É difícil achar um lugar que pareça habitável ali. Cheio de sobrados e vidros quebrados. Se bem que já vi algumas plantas na mureta. Estavam verdes, então é sinal de que alguém jogava água. Cortinas na janela também denunciam. Pra saber se a casa está habitada, tente o truque da cortina. Sempre dá certo. Nossa, é o próximo ponto. Vou dar o sinal.
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
É
Quando recebeu o embrulho, os olhos encheram-se de água. E ela toda, de surpresa. Veio faz muito tempo? Bastante, umas duas horas ou mais, disseram. O "1501" fora escrito às pressas, ao mesmo tempo em que entalhado. São paradoxos bonitos. Compreensíveis. E desejáveis, pensou. Por trás daqueles números, letras igualmente desenhadas em outro bilhete, daquelas que a pessoa dispensa seus demorados segundos pra escrever. Era o costume de sempre, era sim. E, por trás daquelas letras, do embrulho, e de todo o dia, dia a dia, a lealdade eterna. Pôde concluir.
sábado, 17 de janeiro de 2009
Aspas #7 - Especial Bushismos

"Eu acho que a guerra é um lugar perigoso".
(BUSH, George W. In: Algum discurso. Washington: Washington DC. 2003)
"Sociedades livres são sociedades cheias de esperança. E sociedades livres serão aliadas contra os poucos odiosos que não têm consciência, que matam ao gosto de um chapéu."
(BUSH, George W. In: Algum discurso. Washington: Washington DC. 2004)"A informação está em movimento. Você sabe, o noticiário da noite é uma forma, é claro, mas também está se movimentando pela blogosfera e através das internets".
(BUSH, George W. In: Algum discurso. Washington: Washington DC. 2007)
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
A omissão é, por vezes, positiva
Segunda-feira*. Após um macarrão com molho de presunto e bacon (não um dos melhores que já comi), andei sob o sol quente na esperança de encontrá-lo. Quando cheguei à faculdade, a banca ainda estava fechada. Tive que adiar para o horário de folga a esperada missão de encontrar o livro que eu e um amigo omitimos na sexta-feira passada.
-Moço, estes livros são seus?
-Sim! E o preço está atrás de cada um deles.
Fiquei bastante satisfeita quando o encontrei lá, intacto, escondido. Paguei e voltei ao trabalho, feliz da vida e tirando o plástico que sufocava aquela história tão ardilosa.
Agora Lolita me espera**, no melhor dos sentidos.
*Nascido em 18/02/2008. Ressuscitado hoje.
**Já não mais.
-Moço, estes livros são seus?
-Sim! E o preço está atrás de cada um deles.
Fiquei bastante satisfeita quando o encontrei lá, intacto, escondido. Paguei e voltei ao trabalho, feliz da vida e tirando o plástico que sufocava aquela história tão ardilosa.
Agora Lolita me espera**, no melhor dos sentidos.
*Nascido em 18/02/2008. Ressuscitado hoje.
**Já não mais.

Aspas #6
"Quero pegar muitas mulheres. Porque eu sou homem, e homem é bicho".
(BBB9, candidato aleatório ao. In: Primeira edição do BBB9. Globo: Rio de Janeiro. 2009)
sábado, 10 de janeiro de 2009
Política do não-desperdício
-No Manifesto Antropofágico, Oswald de Andrade propunha um novo entendimento da cultura brasileira. Para se fortalecer, ela deveria deglutir (por isso a metáfora ao canibalismo) o que fosse de "fora", misturar com o que fosse de "dentro" e criar, assim, novas formas de afirmação cultural - era mais ou menos o que as professoras diziam.
Confesso que, quando eu estudei pela primeira vez o movimento modernista e, particularmente, o Manifesto Antropofágico oswaldiano, há uns bons anos, eu não tinha muito a real dimensão do processo. Até que eu entendia o conceito, a metáfora com o Bispo Sardinha, a proposta modernista em linhas gerais. Sim, o Manifesto representava o desejo de determinada parcela dos intelectuais brasileiros por uma identidade cultural própria, em detrimento a toda forma de imperialismo cultural, principalmente se observarmos que o Brasil "comemorava" o contenário de sua independência política. No entanto, eu não enxergava o fenômeno cotidianamente, por assim dizer. Meu estoque de exemplos restringia-se àqueles citados pelas professoras ou os lidos nos livros, apostilas e afins.
Aos poucos eu fui percebendo a dimensão dessa antropofagia na cultura brasileira. E, tomando a ousadia de eu mesmo "deglutir" essa noção e expandir o gesto antropófago para fora dos limites da arte, penso que muitas coisas estão "comendo" as outras, a toda hora, sempre. É claro que nem sempre o objetivo é aquele modernista, o de afirmar uma identidade, ou criar uma nova. O "comer" se dá por diversas razões. Mas, que "deglutem", eles "deglutem".
Nas formas tradicionais de arte, os próprios modernistas brasileiros se encarregaram disso. E, em outras manifestações culturais, também deu-se conta do recado. Na música, talvez o exemplo mais contundente no Brasil tenham sido os tropicalistas. E, como que num metamovimento, também escutamos influências desse experimentalismo na música (em algumas, claro) de hoje. Da mesma forma, certos músicos de hoje definem a seu próprio estilo como uma mistura de elementos musicais regionalistas. No cinema, quase todo cineasta (ou todo?) admite influência de outros. Então, os planos cinematográficos de hoje carregam resquícios de outrora E por aí vai.
E a indústria da comunicação? Alguns juram que nem adianta falar nisso, que os media não são sinônimo de cultura. Mas, se considerarmos que 97% das casas brasileiras têm televisão, por exemplo, é mesmo prudente negar que eles são parte dos hábitos culturais brasileiros? Penso que não, né. Na televisão, estão o tempo todo deglutindo. As grades de programação guardam uma semelhança não-declarada entre si. Programas estrangeiros são "aproveitados" aqui dentro, salvas as devidas especificidades, é claro. Como já dizia um certo comediante brasileiro de tempos idos, "na televisão nada se cria, tudo se copia". E na tv comercial isso é bastante compreensível até. Faz mesmo sentido copiar experiências exitosas de outras horas. O apelo comercial é forte e elas precisam se virar. A corrida não tem fim.
Os devaneios poderiam se estender. O assunto dá pano não só para manga, mas para uma muda inteira de roupa. E será que qualquer influência, cópia ou mesmo plágio se constitui numa apropriação? É um tipo de deglutição cultural? Não sei. Ainda estou aberta a influências de outrem.
Confesso que, quando eu estudei pela primeira vez o movimento modernista e, particularmente, o Manifesto Antropofágico oswaldiano, há uns bons anos, eu não tinha muito a real dimensão do processo. Até que eu entendia o conceito, a metáfora com o Bispo Sardinha, a proposta modernista em linhas gerais. Sim, o Manifesto representava o desejo de determinada parcela dos intelectuais brasileiros por uma identidade cultural própria, em detrimento a toda forma de imperialismo cultural, principalmente se observarmos que o Brasil "comemorava" o contenário de sua independência política. No entanto, eu não enxergava o fenômeno cotidianamente, por assim dizer. Meu estoque de exemplos restringia-se àqueles citados pelas professoras ou os lidos nos livros, apostilas e afins.
Aos poucos eu fui percebendo a dimensão dessa antropofagia na cultura brasileira. E, tomando a ousadia de eu mesmo "deglutir" essa noção e expandir o gesto antropófago para fora dos limites da arte, penso que muitas coisas estão "comendo" as outras, a toda hora, sempre. É claro que nem sempre o objetivo é aquele modernista, o de afirmar uma identidade, ou criar uma nova. O "comer" se dá por diversas razões. Mas, que "deglutem", eles "deglutem".
Nas formas tradicionais de arte, os próprios modernistas brasileiros se encarregaram disso. E, em outras manifestações culturais, também deu-se conta do recado. Na música, talvez o exemplo mais contundente no Brasil tenham sido os tropicalistas. E, como que num metamovimento, também escutamos influências desse experimentalismo na música (em algumas, claro) de hoje. Da mesma forma, certos músicos de hoje definem a seu próprio estilo como uma mistura de elementos musicais regionalistas. No cinema, quase todo cineasta (ou todo?) admite influência de outros. Então, os planos cinematográficos de hoje carregam resquícios de outrora E por aí vai.
E a indústria da comunicação? Alguns juram que nem adianta falar nisso, que os media não são sinônimo de cultura. Mas, se considerarmos que 97% das casas brasileiras têm televisão, por exemplo, é mesmo prudente negar que eles são parte dos hábitos culturais brasileiros? Penso que não, né. Na televisão, estão o tempo todo deglutindo. As grades de programação guardam uma semelhança não-declarada entre si. Programas estrangeiros são "aproveitados" aqui dentro, salvas as devidas especificidades, é claro. Como já dizia um certo comediante brasileiro de tempos idos, "na televisão nada se cria, tudo se copia". E na tv comercial isso é bastante compreensível até. Faz mesmo sentido copiar experiências exitosas de outras horas. O apelo comercial é forte e elas precisam se virar. A corrida não tem fim.
Os devaneios poderiam se estender. O assunto dá pano não só para manga, mas para uma muda inteira de roupa. E será que qualquer influência, cópia ou mesmo plágio se constitui numa apropriação? É um tipo de deglutição cultural? Não sei. Ainda estou aberta a influências de outrem.
Aspas #5
"Não quero um helicóptero ou uma lancha. Mas quero ser amigo do dono do helicóptero, ou do dono da lancha".
(BAMBAM, Kleber. In: Globo Repórter - Especial sobre os ganhadores do BBB. Rio de Janeiro: Globo. 2009)
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