domingo, 17 de agosto de 2008

Um e outro astro

Bem dizem que a gente aprende com as crianças, em todos os sentidos. E a verdade do dito eu pude constatar mais do que nunca no sábado à noite, quando estávamos mamãe e eu caminhando em direção à casa de uma tia, em Cajuru.
Mamãe encontrou-se com uma moça que trabalhou com ela em uma escola. Acompanhada do marido e das duas filhas, a mulher ostentava uma barriga que predizia a chegada de um novo membro na família em meados de janeiro. Como é comum entre pessoas que trabalham juntas, as duas engajaram-se em uma conversa sobre professores, a merenda escolar e a eleição de uma nova diretoria.
Uma das meninas parecia ser alguns anos mais nova que eu, ao passo que a outra era uma agitada criança. Desde o início de nosso trajeto em comum, ela cantarolava palavras que eu não podia entender e ensaiava curiosas reboladas. Achando-a engraçadinha, tratei de puxar papo.
- Qual é seu nome mocinha?
- Maria Fernanda!
- E quantos anos você tem, Maria Fernanda?
- Seis - e representou com os dedos.
- O que você está cantando? - em tom amistoso, ao mesmo tempo em que, gratuitamente, ela me deu a mão.
- Titanic! - respondeu a graciosa.
- Que legal, então você conhece a música? Mas o filme é tão antigo, é de antes de você nascer...
- Tô cantando funk!
Taí, eu não sabia. E a garota, cronológicos seis anos e alguns a mais concedidos pela vivacidade, acabara de me mostrar, mesmo sem saber, que Leonardo di Caprio perdeu o trono para o Dj Leco.

sábado, 9 de agosto de 2008

Aspas #4

"E agora, a formação humana da Muralha da China, que siginifica... bem, significa uma muralha".
(BUENO, Galvão. Locução da cerimônia de abertura das Olimpíadas de Pequim. China: Pequim. 2008)

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Grandes Amores

Sobre uma pequena mesa, moringa com água, caneca e copo. Junto disso, uma planta e um banco simples de madeira, sob uma luz baixa e amarelada. À primeira vista, lugar comum. No entanto, ele ganha vida com a interpretação de João Bosco Alves na peça O Amor no Grande Sertão. Assiti à montagem no Festival de Inverno deste ano, em Diamantina. Coisa curiosa é que a diretora, Ana Leonel, é esposa do João. E são só os dois. Ele, com a interpretação magnífica, e ela, com roteiro, direção, figurino, cenário e tudo o mais. Um casal e tanto, eu diria.

A peça é inspirada em Grande Sertão: Veredas. O monólogo de João é, no início, um afluxo desconexo de causos do sertão mineiro, de trechos da infância do narrador-personagem Riobaldo e de reflexões sobre o bem e o mal, como no início do romance roseano. As tensões e conflitos entre bandos de jagunços no sertão permeiam a montagem. Ele fala a um interlocutor subentendido que, no caso de Amor no Grande Sertão, é o público que o assiste. Por vezes de olhar resignado, outras vezes andando sobre o palco, sempre com gestos eloqüentes, o ator João Bosco dá voz aos constantes aforismos presentes ao longo do livro. “Deus é paciência”.

O encontro com Reinaldo, que depois diz se chamar Diadorim, é rememorado com olhar nostálgico por João Bosco. Riobaldo não se esquece dos olhos verdes e das feições leves daquele jagunço moço que viu pela primeira vez à beira do Velho Chico. “Perto da água todo mundo é feliz”. O contato com Diadorim se estreita mais e mais nas andanças dos dois jagunços pelo sertão mineiro. E o sentimento começa a brotar. “Era ele tá perto de mim e nada me faltava”.

João Bosco também faz conhecer, por meio de Riobaldo, Nhorinhá e Otacília, mulheres que povoam os pensamentos do sertanejo. Apesar disso, a angústia cresce. Como dois jagunços poderiam andar de mãos dadas em meio ao bando? Diadorim passa a demonstrar ciúme pelas duas raparigas, o que culmina em um acordo: dali em diante, nenhum dos dois se envolveria com mulher alguma. Sem se culpar, agora Riobaldo assume pra si mesmo que ama Diadorim, sem, no entanto, revelar isso a ele.

As tensões entre os bandos rivais se acirram. O chefe Joca Ramiro morre e Diadorim quer vingança a todo custo. E a batalha não demora a começar. Diadorim e Hermógenes, o assassino de Joca Ramiro, se engalfinham numa luta sangrenta. A morte carrega ambos. E João Bosco, o rosto em tons escarlates e os olhos lacrimejantes, interpreta com perfeição a última dor de Riobaldo na peça: a descoberta de que Diadorim era, na verdade, uma mulher. “Diadorim, meu amor”.

O público aplaudiu de pé por um tempinho. João Bosco foi objetivo. "Muito obrigado!".

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Personagem # 0

Um personagem da vida real pode, porventura, ganhar as "páginas" do blog daqui em diante.

Sempre de cócoras defronte ao portão verde de casa, na mais genuína representação inconsciente da pose de Jeca Tatu. Esse é o Sérgio. Vizinho calouro em meio a vizinhas veternas, o Sérgio se arranchou na casa que dá de frente pra minha, lá em Cajuru, há cerca de dois anos. E, na sua quietude permanente, que toma forma em um corpo esguio, cabelos grisalhos e um bigode escuro bem-aparado, ele se faz notável.

Além de vínculos afetivos, Sérgio também tem ligações de sangue com as moradoras. É pai da mocinha da casa do portão verde, que, em meio a um pique-esconde e outro, vira-e-mexe me falava sobre o Sérgio. "Hoje vou visitar meu pai".

Um dia minha mãe me explicou a situação. A mãe da mocinha namorou um tempo com o Sérgio, e a mocinha foi fruto desse namoro. Na época, ele já tinha se separado de outra mulher e tinha, inclusive, filhas crescidas.

Quando ainda morava em Cajuru, notei que o Sérgio vinha visitando muito a mocinha da casa do portão verde. A mãe, sempre uma anfitriã das melhores. E a mocinha, cuja característica mais marcante é a simplicidade por trás de um corpanzil generoso, mantinha o sorriso durante toda a visita.

E ele foi se achegando. Ironia do destino ou não, o dono da casa ao lado da casa de portão verde foi-se embora pra outras bandas. "Aluga-se". Não demorou muito, o Sérgio era o inquilino. E os dias da mocinha e da mãe dela pareciam mais felizes. "Pai!?". Todo o dia a mocinha chamava no portão para oferecer um prato de comida, um saco de biscoitos ou mesmo um dedo de prosa.

Hoje, quando estou em Cajuru, é impossível não vê-lo. Quando abro o portão da rua, em qualquer hora do dia, Sérgio é o primeiro que vejo. De cócoras, defronte ao portão verde. Dá até mais segurança de sair de casa. Ele vai estar sempre olhando pra ela. E para as outras casas. Para os cães que passeiam. Para a rua.

sábado, 14 de junho de 2008

Brooke Waggoner



Oh, why here it's so-so
but it is no, no Colorado
I miss my home and the cocoa
I wanna go home...

(...)

"A música é So-so", ele disse por e-mail.
Quem é ele? Ele é Flávio, um amigo.
"É a sua cara", ele disse.
Realmente, me agradou muito a música. Quem canta?
"Brooke Waggoner", por e-mail.
Nossa, vou procurar mais coisas dela.
"Ela disponibilizou o CD para baixar, no site dela", por msn.

Um site belíssimo, com ares retrô. Realmente, lá estava "Click here for free download". Cliquei. Só precisa de e-mail, nome, cep e país (para os três últimos, exercite sua criatividade). Eles vão te mandar um e-mail pra confirmar e tudo, mas é bem rápido.

Daí vem. Um acompanhamento belíssimo de piano, uma voz suave e uma letra simples compõem músicas com tons que vão do nostálgico ao melancólico. Lindo.

Brooke Waggoner, norte-americana que vive em Nashville, em Tenessee, tem apenas 23 anos, e compõe desde os 10. Com formação superior em Composição e Orquestragem Música, lançou esse primeiro CD, o Fresh Pair of Eyes, com apenas seis faixas que, convenhamos, te fazem pedir mais. Ela conta que sempre soube que música seria o que ela faria da vida. E muito bem feito, aliás. (biografia no site)

Em tenpos em que você encontra tudo (sim, tudo) na internet, o engraçado são as poucas referências à moça. O CD foi lançado há quase um ano, em agosto de 2007, mas no orkut não existe nenhuma comunidade e ela aparece como referência de gosto musical em apenas um perfil. Um perfil! Além disso, na comunidade "Discografias", nada. Páginas no google, muito poucas. No Last FM, "ainda não temos uma descrição para este artista. Gostaria de nos ajudar?", embora pelo menos existam a foto e as músicas. No youtube, alguns vídeos.

Pelo menos no myspace ela tem seu espaço (hehe). Lá ela é muito comentada. Lá sim. As pessoas agradecem pela música. E, pelo visto, os show dela são ainda locais, para pequenas audiências. Barzinhos e cafés, parece. Quem sabe não é melhor assim?

www.brookewaggonermusic.com



sexta-feira, 30 de maio de 2008

Aspas # 3

"O mundo se divide entre aqueles que compram canetas e aqueles que pegam as canetas daqueles que as compraram"
(SILVEIRA, Carolina. Encontro no Chico da Carne 3. Belo Horizonte: Barro Preto. 2008)

segunda-feira, 26 de maio de 2008

A carona podia esperar

A menina atravessou depressa a rua. O seu ônibus passaria do outro lado da calçada e ela não sabia o horário. Em dia de sábado os horários mudam, ficam mais espaçados, e ela havia se esquecido de olhar no site quando passaria outro.

Com uma mochila nas costas e sacola em uma das duas mãos, com o presente recém-comprado de dia das mães dentro dela, ela enfim conseguiu atravessar, em meio àquele mundo de veículos que só as capitais conhecem. A pressa era grande: a carona para a sua cidade de origem ia sair dali a 20 minutos, de um ponto bem distante dali. Além disso, tinha que considerar o trânsito que, em vésperas de datas como aquela, tendia a ficar mais cheio. Também, não queria passar vergonha com o primo, que lhe dava a carona, bondosamente, todas as vezes que ela pedia.

Inquieta e já no ponto, ocupado por idosos, adultos e crianças, ela virava incessantemente a cabeça para a direção da qual o ônibus viria. Tirava o celular da mochila: 15 para as uma da tarde. Nem sinal de ônibus. Só faltava o 2004 não passar aos sábados. Pronto. Aí complicava. Como ia fazer para avisar o primo que iria atrasar, sendo que, para variar, não tinha créditos em seu celular? Ele ia perceber a demora e iria ligar. Aí ela ia ter que se desculpar até, dizendo do trânsito, do erro de ônibus, e que já tinha saído de casa tarde pra comprar o presente da mãe, já que...

Aí, percebeu ao lado dela uma senhora. Assim, devia ter uns 75 anos. Cabelos grisalhos e crespos, pele mulata, vestida de cinza e carregando sacolas. Numa delas, dava pra ver um ramalhete simples, de flores frescas. Pelo olhar determinado dela, na mesma direção que o da menina, ela parecia utilizar sempre aquele ponto.

-A senhora sabe se o 2004 passa mesmo aqui? Estou esperando há dez minutos e ele não chega... Tô com medo de ele não passar.
-Ele vai pra onde?
-Para a avenida Antônio Carlos.
-Ah, passa sim! Pode ficar tranqüila que ele passa, minha filha.
-Ah, que bom! Obrigada!
Agora estava mais tranqüila. Era só esperar. Mas, que boa vontade tinha tido aquela senhora para com ela. Respondera com um sorriso tão amável, desses que não é tão comum assim em conversas com desconhecidos... Virou-se para ela mas, agora, sem o egoísmo de antes:

-O ônibus da senhora também passa aqui? (Numa espécie de pergunta idiota, daquelas que já se sabe a resposta)
-Passa sim, minha filha. É o ônibus que vai para o Bonfim. Tenho que ver mamãe, pois amanhã não vou poder ver ela.
-Que legal! Então a senhora ainda tem mãe? E ela mora no bairro Bonfim?
-Não, eu vou é levar essas flores no túmulo dela, no cemitério Bonfim.
Pausa. Má nota terrível, a menina pensou. Há pouco mais de um ano, ainda não conhecia de cor o nome de todos os cemitérios da cidade; lembrava-se só do da Paz e do da Boa Viagem. Agora a senhora com certeza iria desviar o olhar para a avenida por onde o ônibus viria, e não ia querer mais papo. Com razão. Surpreendentemente:
-Sabe menina, acho que hoje vou atrasar o almoço. Mas não posso deixar de ver mamãe, porque amanhã minhas filhas e netos vão almoçar lá em casa. Eu tenho um filho que mora comigo, ele é taxista sabe. Ah, mas ele pode pedir marmita também, se achar ruim.
-Ah, ele vai entender que é por uma boa causa.
-Pois é, vai sim. Aí amanhã vai aquele tanto de neto lá pra casa. Tive uma nora que morreu com 35 anos, quando meu neto tinha 9 anos. Hoje ele tem 15, e vai pra lá amanhã também.
-Então a senhora ajudou a olhar ele?
-Sim, ajudei. E meu marido já morreu faz tempo. Criei cinco filhos, e hoje...

Uma pequena aglomeração começara a se juntar no passeio. O 2004 estacionava próximo ao meio-fio.
-Ô senhora, eu preciso ir, meu ônibus chegou. Muito obrigada pelas informações. Um feliz dia das mães pra senhora, viu?
-Obrigada, minha filha. Você tem mãe?
-Graças a Deus, sim.
-Então mande um abraço pra ela.
-Mando sim!
-Qual é seu nome? O meu é Celina, minha filha.
A menina respondeu e abriu um largo sorriso, acenando com a mão, já nos degraus da porta do ônibus. Faltavam 5 para as uma. Ela estava com fome, o ônibus estava cheio e, o sol lá fora, de rachar. Mas ela tinha sido merecedora de confiança gratuita aquele dia. Se teve pagamento, foi apenas com um sorriso.
P.s.: Qualquer semelhança é mera coincidência.